A
CASA

O projeto É Logo Ali nasceu a partir da necessidade de transferir algumas das atividades do Sesc Ipiranga, que estava em reforma, para outro espaço. O local escolhido foi um casarão antigo, localizado na Rua Bom Pastor, 709, vizinho à unidade do Sesc no bairro, justificando assim o nome do projeto É Logo Ali.

As bases da ambientação desse novo velho lugar foram erguidas a partir do conceito da poética do espaço, criado pelo filósofo francês Gaston Bachelard e apresentado em obra homônima, lançada no ano de 1957.

A equipe técnica do Sesc Ipiranga, juntamente com Ricardo Muniz, Júlio Cesarini e Hideki Matsuka, os profissionais que elaboraram o projeto É Logo Ali, tiveram o cuidado de manter preservada a noção de casa como um espaço privado, local de intimidade, do aconchego e da memória. Alguns dos objetos encontrados na casa antes da reforma foram reaproveitados na ambientação e também aqui no site, criando uma relação profunda deles com o espaço onde foram deixados.

Ali, foram realizadas atividades de várias linguagens artísticas - literatura, dança, artemídia, teatro, artes visuais e música - sempre incentivando a criação de um diálogo em torno de cada uma delas. O caráter experimentalista e temporário do projeto É Logo Ali permitiu a criação de novos formatos, únicos e distintos daqueles realizados nas unidades do Sesc, ampliando o leque de possibilidades da instituição e levando novas experiências ao público.

Além das atividades, também foi criada especialmente para o projeto uma série de textos literários. Os autores convidados desenvolveram narrativas que transitaram pela poética dos espaços, tendo como inspiração o próprio local que essas obras ocupariam depois de prontas e impressas. Esses textos ganham aqui uma dimensão etérea, passando a ter uma relação com alguns dos objetos encontrados por lá.

Inaugurado no dia seis de junho de 2014, o projeto permanece até o dia dois de novembro deste ano. Agora, o que um dia foi algo temporário, logo ali, passa a ter na internet seu espaço definitivo, onde tudo ficará registrado de forma atemporal.

Entre, fique à vontade e repare bem na bagunça.

PALAVRA
DO
CURADOR

Um espaço aberto e amplo, local ideal para sobrepor camadas sobre ele, significados amontoados, Imóvel móvel, mutante, provisório. Lugar onde está em xeque sua grandiosidade e deformidade, ressaltando seus contrastes e seus desequilíbrios. “Problema arquitetônico” ao vivo! Lugar aberto à criação de programas onde a questão da arte contemporânea possa ser vivida e discutida, não somente por intelectuais, mas por pessoas comuns, moradores do bairro, jovens, adultos, velhos e crianças.

Não um centro cultural, mas um centro provisório: um espaço ocupado e aberto a experimentações, dialogando com a cidade e com sua própria des-organização questionando a produção cultural como ela está estabelecida nos dias de hoje. Nada está pronto e acabado. Tudo se desloca o tempo todo, se torna móvel e a-cêntrico, excêntrico.

Detrás de muros um lugar desterritorializado.

Um Lugar Ainda é possível: "É logo ali".

Um penetrável, um espaço que já abrigou tanta história, história que permanece como restos, ali deixados e revelados reinventando aquela história, e muitas outras histórias que vão se agregando na sua montagem. Exemplo 1: apelo ao Santo Expedito para sua liberação e depois promessa cumprida com ele homenageado em mínimo altar na porta! Exemplo 2: o azul claro das paredes e suas manchas e mofos emoldurados e tornados obras, narrativas sobre narrativas. Amontoados, amontoando-se em novas perspectivas e linhas de fuga. Projeto se fazendo junto ao programa. Casa para sempre viva, abrigo de ideias, de intermináveis puxadinhos iniciados e que podem ser derrubados, mas permanecem na memória, na história, no porvir.

Ricardo Muniz